domingo, 23 de maio de 2010

Formação Profissional!

Sempre gostei de conversar e trocar idéias com acadêmicos de Educação Física, em especial, com os “bixos”, acadêmicos que estão no 1º ano de curso. Sempre achei interessante saber a perspectiva, com relação ao curso e a nossa profissão, de quem está iniciando esta caminhada. Recentemente, fui convidada pela professora Lisiane que ministra a disciplina de Introdução à Educação Física na faculdade de EF da Unijuí/Campus Santa Rosa, para “bater um papo” com seus alunos sobre a nossa profissão e suas varias possibilidades. Diga-se de passagem, grande idéia da professora, pois esse “bate-papo” fui muito interessante e mostrou que os alunos apresentam uma postura e interesse profissional desde o primeiro semestre.
Refletindo sobre esta oportunidade criada pela professora, lembrei-me de um artigo do Dr. Go Tani: “Avaliação das condições do ensino de graduação em Educação Física: Garantia de uma formação de qualidade”, publicado pela Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, em 2007. Este artigo fala de alguns fatores determinantes para uma formação de qualidade. Como acredito muito e amo o que faço, me emocionei. Ao reler o artigo, a minha vontade era de falar pra essa galera que está ingressando: “O Go está mais do que certo, é isso aí galera, “sem tirar nem por...” Assim, transcrevo a seguir alguns trechos que traduzem isso:
Com relação ao Corpo de Conhecimentos
“...Como se sabe, a ausência do suporte de um corpo de
conhecimentos devidamente estruturado coloca em cheque não apenas a autenticidade de uma profissão, mas também a sua própria sobrevivência (Lawson, 1984; Morford, 1972; Tani, 1988, 1989, 1996, 1998). Numa profissão academicamente orientada, ou seja, aquela em que o exercício profissional pressupõe uma formação em nível superior, é imprescindível a existência desse corpo específico de conhecimentos; caso contrário, melhor caracterizaria uma profissão técnica para a qual a formação pertinente seria um curso profissionalizante de ensino médio.
É importante salientar que apesar de existirem diferentes tipos de conhecimentos úteis à prática profissional, como aqueles de natureza pessoal e profissional, assume-se que a legitimidade social e profissional de uma profissão passa necessariamente pela legitimidade acadêmico-científica desse corpo de conhecimentos. Daí concluir-se que os conhecimentos científicos são aqueles que devem constituir a estrutura base do corpo de conhecimentos que dá sustentação a uma profissão academicamente orientada...
... Está claro que a qualificação do corpo docente no que diz respeito à composição, formação e produção intelectual influencia fortemente a qualidade do ensino de Graduação em qualquer área de conhecimento...
...Durante o período em que a Educação Física resumia-se fundamentalmente a um curso de preparação profissional, o que se esperava do seu corpo docente era um bom desempenho no ensino, em grande medida proporcionado e garantido pelo nível de acesso e sintonia mantido com potenciais fontes de informação (particularmente os cursos de cunho técnico e, em menor escala, as chamadas ciências-mãe). Não se tinha a expectativa dele próprio ser um produtor de conhecimentos, mas sim um consumidor, organizador e disseminador dos mesmos. Quando a Educação Física começou a fazer parte da estrutura universitária e, portanto, teve que assumir a produção do seu próprio corpo de conhecimentos - até mesmo para justificar a sua presença na universidade - o perfil desejado do docente passou a ser o do professor que pesquisa...”
Segundo o autor, o perfil de professor que pesquisa não atende mais as expectativas atuais. “...o perfil a ser perseguido deveria ser o de pesquisador que ensina (Tani, 1992, 1996, 1998, 1999a), ou seja, aquele que faz da pesquisa as suas preocupações prioritárias e dissemina os conhecimentos produzidos junto ao ensino de Graduação. O docente com esse perfil estará sempre sintonizado com o estado da arte na sua área de investigação e mais apto para ensinar não apenas o conhecimento como um produto acabado, mas sim o próprio processo de sua produção. Além disso, pelo fato de estar sempre desafiando o mundo desconhecido, está mais bem preparado também para os desafios da mudança.
... Diz-se, freqüentemente, que diante das condições de incerteza geradas pelo mundo desconhecido (novo), existem normalmente duas opções de resposta. A primeira é procurar adquirir competência para adaptar-se às novas exigências e a outra é voltar ao mundo conhecido para tentar manter o status quo. A primeira exige uma atitude positiva de produção e
reorganização dos conhecimentos num estado mais elevado de complexidade. A segunda implica, na maioria das vezes, “habilidosas estratégias” para fazer parecer novo aquilo que é velho, como, por exemplo, mudar o nome da disciplina sem mudar o seu conteúdo ou aumentar o número de disciplinas pela simples divisão do conteúdo já desenvolvido (Tani, 1996). A história mostra, infelizmente, que na Educação Física brasileira a segunda estratégia prevaleceu, ao menos nesses 15 anos...
... Todos sabem que a pesquisa é o grande agente gerador das mudanças no meio acadêmico... Pesquisar nesse contexto significa, antes de mais nada, uma tomada de atitude.
É sentir-se insatisfeito com o seu status quo em termos de conhecimentos adquiridos e ter determinação para desafiar o mundo desconhecido. Pesquisar é ir além da estabilização, introduzindo incertezas que possam gerar mudanças contínuas na sua estrutura de conhecimentos...” (grifo nosso)
Quanto ao corpo discente:
“...o graduando ser sujeito do seu processo de aprendizagem. Isso implica vários aspectos: entender que não mais se estuda para ser aprovado numa prova, mas sim para ter acesso a conhecimentos e construir uma estrutura sólida que se tornará seu instrumento de trabalho; cultivar uma postura de independência no que se refere a busca de conhecimentos, não se limitando àquilo que o professor oferece numa sala de aula; explorar fontes de informação por conta própria - bibliotecas, laboratórios, grupos de estudo, cursos, palestras, etc. - para suprir as suas curiosidades intelectuais estimuladas na sala de aula ou mesmo em outros segmentos da convivência institucional; entender que aquilo que é oferecido em sala de aula é apenas uma parte mínima de um rico acervo cultural acumulado historicamente e que a universidade tem limitações intrínsecas em disseminar conhecimentos perante uma ciência que os produz num ritmo alucinante; compreender desde cedo a importância do aprender a aprender, porque o conhecimento pode tornar-se desatualizado em pouco tempo; manter-se sintonizado com as inovações e avanços tecnológicos e científicos para não se tornar obsoleto...
...Em suma, o corpo discente tem uma grande responsabilidade na melhoria da qualidade do ensino. Antes de tudo, é preciso estudar muito, com afinco e dedicação. Ter postura crítica é essencial para apresentar sugestões e reivindicações, mas é necessário que elas sejam acompanhadas de uma reflexão criteriosa e de uma autocrítica sincera. Ser crítico não pode ser confundido com ser um aguerrido contestador que, muitas vezes, não passa de um ingênuo "testa de ferro" ou "massa de manobra" de grupos específicos, muitos deles liderados por docentes, com objetivos outros que não a formação profissional de qualidade. Ser crítico no sentido verdadeiro do termo, ter mente aberta e não dogmática, mostrar iniciativa e vontade de
aprender são requisitos fundamentais não apenas para uma formação profissional de qualidade, mas também para a formação de um cidadão responsável, participativo e competente.”

Recomendo a leitura na íntegra... Se alguém quiser o artigo, sinaliza que encaminho.
Forte abraço
Angélica

3 comentários:

Nuri disse...

olá...
Estou ausênte no blog né, prometi que viria contar coisas e não arrumo tempo... mas um oi vim dizer.

assim que arrumar um tempinho venho deixar umas ideias.

ate mais
luciano basso

Lacom Esef Ufpel disse...

Olá Luciano!
Pois é... ainda estamos aguardando... haha
De qualquer maneira, sempre és bem vindo!
Abraço
Galera do Lacom/UFPEL

Nuri disse...

Olá...

Agora estou de volta, e se tudo correr bem, para não ficar mais ausênte...

Gostei muito da sua postagem sobre a formação profissional. Acredito que o Go com mais alguns professores tem enfatizado essa discussão, a qual serve pra nós mais novos como um alerta e caminho a seguir, buscando construir uma postura cada vez mais orientada academicamente.... Parabéns pela postagem...
Luciano Basso