Um pouco de política...
Eu adoro textos escritos com o coração e ainda mais quando versam sobre temas que eu gosto, neste caso: a política!
De Manuela D´Ávila, uma comunista que aprendi a admirar e também aprendi com ela e aprendo a cada dia.
"Financiamento público, privado, verba indenizatória, corrupção???
Sexta-feira participei de um programa de TV sobre financiamento de campanhas eleitorais. O tema surgiu em função dos escândalos com a construtora Camargo Corrêa.
Quero deixar claro: sou a favor do financiamento público de campanha. Defendo isso por três motivos: primeiro, porque acredito que garante maior igualdade na disputa entre novos e antigos políticos, entre parlamentares e cidadãos sem mandato, entre partidos grandes e pequenos. Em segundo lugar, garante independência plena aos parlamentares para sua atuação parlamentar. Em terceiro, acredito ser forte ferramenta de combate a corrupção. Afinal, quase todos os escândalos de corrupção tem relação direta com desvio de recursos públicos.
Lá pelas tantas ouvi algo com este sentido: quem recebeu dinheiro com recibo vendeu seu voto no futuro. Espera aí... Não posso acreditar que quem está dentro da lei também virou bandido. A lei diz que as campanhas são feitas com dinheiro privado. Dinheiro privado sem recibo é crime de caixa 2. Quem recebe dinheiro declarado está, portanto, cumprindo a lei nacional. Essa mesma que eu defendo a mudança, mas essa é a lei.
É evidente que todos aqui dentro defendem algum interesse e nem todos são interesses escusos: eu defendo os interesses dos estudantes, das universidades públicas e dos trabalhadores, por exemplo. Temos na nossa bancada, do PCdoB, uma posição contrária às taxas de juros praticadas no Brasil, isso não agrada aos bancos. Eu defendo o setor produtivo nacional. Porque geram empregos para os trabalhadores que eu defendo. Isso não me impediu de presidir uma tensa audiência pública sobre a EMBRAER e os quatro mil demitidos. Por que estou dizendo isso?
Porque se nós misturarmos alhos com bugalhos nos perdemos na discussão sobre o que é correto e incorreto, legal e ilegal, moralmente aceito e imoral. Se o cidadão com financiamento privado legal é bandido, que alternativas restam para os honestos?
Vamos a uma simulação: os conservadores são contra financiamento público porque dizem que é dinheiro do povo para políticos e esses políticos são, quase todos, bandidos. Dizem que o financiamento privado legal compromete o voto. Logo, só escapam dessa equação: aqueles que já recebem dinheiro público a partir da corrupção ou os que recebem dinheiro privado por caixa 2. Ah, não!!! Sobram outros os milionários que pagam suas campanhas. E esses não são, é óbvio, representantes dos trabalhadores, dos negros, das minorias sociais. Alto lá!!! Queremos mudanças sim, Ética, independência, transparência. Mas eu quero seriedade no debate sobre isso. Não posso admitir ser colocada num saco de gatos corruptos como se todos aqui dentro fossem assim.
Para fazer o debate sobre Reforma Política e financiamento público de campanha exige seriedade. E acho que, muitas vezes, isso não está acontecendo.
Me lembro da passagem de um livro de meu namorado, José Eduardo Cardozo. Como é de conhecimento público ele relatou e presidiu inúmeras CPIs ao longo de sua trajetória política. Teve destaque por conduzir o processo de cassação do Prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Num livro chamado “A máfia das propinas” ele relata que a filha, ainda criança, chegou em casa e perguntou: “pai, o nosso dinheiro é roubado? Porque o de todos os vereadores de São Paulo é”. E ele era quem conduzia a CPI que investigava esses vereadores corruptos.
Eu não quero passar por isso o dia em que tiver o meu tão sonhado filho. Não quero e me acho correta em não querer. Por isso quero seriedade para fazer esse debate
Verba indenizatória e passagens aéreas
Vou a outro fato recorrente nas capas dos Jornais. A verba indenizatória e as passagens aéreas.
Eu sempre defendi a total transparência na divulgação desses gastos. Comunico a todos que em meu novo site teremos uma parte dedicada à transparência: vou apresentar as notas e dizer ao que se referem. Ou seja, nota de R$200 de gasolina (viagem ao município X, Y ou Z). Mas não posso aceitar esse debate de que esse recurso seja incorporado ao salário. Não posso porque isso nunca foi e nem nunca será um dinheiro meu. Isso é o que dá condições para uma parlamentar comunista, como eu, que não tem financiamento permanente de um banco ou uma empresa, que não é milionária e nem filha de milionária, fazer política e trabalhar. Vamos lá: eu preciso desse dinheiro para fazer um roteiro como o que fiz semana passada para Santo Ângelo, Santa Rosa e etc. É com esse dinheiro que eu dou transparência ao meu mandato a partir do jornal que divulguei segunda em Campo Bom e Novo Hamburgo. Esse recurso me permite ter o meu site que divulga todos os meus projetos e dá ao cidadão o direito de controlar o meu mandato. A verba indenizatória me permite ter o escritório em Porto Alegre (esse que vocês são recebidos, deixam projetos de leis, debatem seminários etc.). Como vou reconhecer que isso é meu salário? Não vou.Isso é o que garante, para mim, condições de trabalho.
Isso significa que não tem irregularidades? Está provado que tem. E a mudança é chamar todo mundo de ladrão? Pelo amor de Deus!!!! Isso significa dar ao povo o direito de saber, dar a imprensa o direito de fiscalizar e denunciar. Aí querem resolver tapando o sol com a peneira. Eu não tenho vergonha de anunciar publicamente meus gastos. Porque não sou paga para lutar pelos estudantes e trabalhadores por ninguém que não seja o povo. O mesmo povo que me elegeu. Portanto,as irregularidades (que devem ser punidas) não são a justificativa para incorporar esse recurso ao salário.
Essas equações frágeis podem nos induzir a seguinte conclusão: se tem político ladrão acaba-se com a política e com o parlamento. Meu Deus!! O parlamento só foi fechado na ditadura. A democracia tem que ser radicalizada e não diminuída. Com a radicalização da democracia o povo vai saber quem financia campanha de quem, quem usa verba indenizatória com o que e o povo vai poder mudar, escolher melhor, julgar moralmente os seus políticos.
Vejam outra decisão que passou desapercebida por boa parte da imprensa: a restrição de uso de passagens aéreas. Só assessores e familiares podem usar. O quê? O povo tem que pagar a passagem do filho do político X? Em minha opinião, não. E é justo que eu pague a passagem de um professor ou um economista para fazer um debate sobre a crise econômica mundial? Em minha opinião, sim. Porque isso contribui com a busca de soluções para o maior problema que o mundo e o Brasil vivem: o desemprego ocasionado pela crise. Não há uma incoerência nisso??? Há, sim, em minha opinião. Viram como não é fácil ter um papo simples sobre esse assunto?
Às vezes, sou perguntada se defendo ou não a verba indenizatória, as passagens aéreas e as pessoas surpreendem-se com minha resposta afirmativa. Logo, apresento esses exemplos e argumentos. Gente, nós temos que refletir, não apenas reproduzir. Combater a corrupção é uma coisa, fragilizar a jovem democracia brasileira, é outra.
Já fui julgada por rir e usar laptop no plenário. Numa das cenas mais dantescas que já vivi: usando o MSN (que foi chamado de Orkut pelo jornalista). Ignoravam eles que com meu laptop economizo papel (leio os textos na tela, não gasto árvores nem dinheiro). Ignoram que com o MSN economizo telefone, pago com dinheiro do povo. Até hoje tem gente que não vota em mim por aqueles dois segundos na TV. Me recordo de outro fato: quando minha querida e saudosa avó morreu estava me dirigindo ao hospital ou à capela resolver algo relativo a isso. Um carro para do lado do meu, perto da Zona Sul, e o cidadão grita: bah! Terça-feira e tu estás aqui e não em Brasília?? Nunca mais voto em ti. Nenhuma pergunta. Nenhuma dúvida. Para ele, eu era uma matadora de trabalho. Mesmo que estivesse sofrendo, como nunca antes na vida.
Escrevo aqui no blog como um desabafo. O desabafo de quem luta pela democracia e tem orgulho de ser comunista e fazer política há doze anos. De quem planeja a própria vida (não fazer o mestrado) em função de sua atividade política. É o desabafo de quem se emociona em ver 800 jovens matriculados no PROJOVEM, em Novo Hamburgo, e se sentir parte dessa história, tendo votado esse projeto no Congresso Nacional. Ou de quem sorri muito ao ouvir o agradecimento de um estagiário por ter aprovado um substitutivo de minha autoria que lhe garante férias.
Esse desabafo é de uma jornalista que defende radicalmente a liberdade de imprensa. E que quer uma imprensa livre, investigativa, que ajude a melhorar o Brasil. Mas é o desabafo de quem não entende porque a magnífica palestra do professor Márcio Puxam (que comentei ontem aqui no blog) não ganhou uma linha nos jornais e o desvio de 10, 20, 30 deputados ganha todas as capas de jornais. Não há espaço para os dois?
Eu sou autora do Projeto de Lei que obriga a divulgação de todos os gastos das prefeituras na internet. Ou seja, DEFENDO A RADICALIZAÇÃO DA TRANSPARÊNCIA. Mas defendo sim, que as pessoas tenham direito de ter acesso a todas informações. E não só a parte delas. Que as pessoas tenham a chance de conhecer para que serve cada coisa, o que cada um faz. De bom e de ruim.
É um desabafo de quem não agüenta mais ouvir que todos são ladrões. Não gente. Eu não sou. E tenho o direito de me indignar e, às vezes, de me cansar... Não sou covarde e não fui eleita para ser covarde, por isso estou dizendo para vocês, de verdade, o que penso.
Ufa! Escrevi demais. Espero que entendam. Radicalizemos a transparência para garantir que o povo melhore, aperfeiçoe a democracia e seja dono dela. De verdade. "
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 comentários:
Gé, se o Dr. Carlos ver isso, ele se suicida. Mas acho legal este teu lado.
Quando vai rolar uma festinha de novo?
Bjux amiga
Carla
Carlinha querida, meu pai sempre foi e é um grande político. Ele é daqueles políticos que empobreceu (financeiramente) na política e não o contrário. Cresci ouvindo ele dizer: "Política é somar e não dividir". Embora ele tenha idéias de extrema direita, segue esse princípio de unir ao invés de dividir. Unindo idéias diferentes, pessoas com idéias diferentes podemos coosntruir. Pode ter certeza disso, ele pensa assim. Confesso que estou influenciando bastante nesse sentido, mas ele está se abrindo para isso. Ele vai se orgulhar e não se suicidar...Aceitar idéias diferentes e respeitar, não é para qualquer um.
beijos amiga
saudades
Gé
Postar um comentário